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Domingo, 20 Out 2019

Inmetro

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ISO 14001 E ENERGIA
Luis Filipe Aboim Tavares(*)

Apagão, palavra que nos apresenta com uma série de apreensões com respeito aos nossos próximos meses. Incertezas quanto à continuidade do fornecimento, custo da energia elétrica e conseqüentemente da normalidade das operações Independentemente das causas, que podem nos causar espanto quanto à sua origem, a situação é real e além de medidas de adequação às novas regras, ações de ajuste são imprescindíveis.

A palavra crise em alfabeto chinês, pode ser lido também como oportunidade, e as restrições agora impostas poderão servir de incentivo para um melhor aproveitamento que a cada dia se torna mais relevante no contexto mundial.

Fontes de energia não renováveis, terão sua extinção decretada, mais dia ou menos dia.

Esta expectativa já é conhecida desde a primeira crise do petróleo, e a não ser que a sociedade, incluindo governo, empresas, cientistas e cidadãos, venham a pesquisar e investir em fontes renováveis, crises como que agora vivemos, e o Brasil não está só, poderão se repetir.

A energia eólica já é uma realidade na Europa. A Alemanha principalmente já obtém um percentual significativo de sua energia elétrica dos ventos. Mesmo o Brasil já vem desenvolvendo iniciativas de relevo, principalmente no Ceará.

Energia solar, para pequenos consumidores, já é uma realidade, embora para grandes volumes de energia, o custo ainda é significativamente maior que fontes convencionais.

Entretanto as ações necessárias no momento, são emergenciais, no sentido de redução do consumo, ou melhor dizendo, no uso racional da energia.

O sistema de gestão ambiental conforme a ISO 14001 se torna desta maneira uma ferramenta de inestimável importância, uma vez que as ferramentas do sistema, ou seja, identificação dos aspectos significativos, estabelecimento de procedimentos de controle operacional ou implementação de objetivos ambientais, complementados pelo treinamento, comunicação, monitoramento, ações corretivas, auditorias e análise crítica pela administração, proporcionarão as melhorias necessárias para adequação às atuais restrições conjunturais, mas assegurarão uma mudança estrutural no modo produtivo, que passado a atual crise, trarão um patamar de eficiência, produtividade e lucratividade em termos de energia, talvez nunca antes alcançado.

E quais as áreas que poderão ser avaliadas? De um modo geral, as oportunidades são inúmeras, dentre as quais poderíamos enumerar:

  • Iluminação: Embora o consumo de iluminação esteja em torno de 2 a 5% do consumo total de um empreendimento industrial (comércio e entretenimento consomem até 40%), as redução de lâmpadas acesas é uma importante demonstração de comprometimento, e o contrário, ou seja uma lâmpada acesa durante o dia poderá jogar por terra todos os argumentos para racionalização do consumo de energia elétrica.
De qualquer maneira, a luz solar é gratuita, resta apenas deixa-la entrar. Substituição de telhas opacas por translúcidas poderá responder por até 40% de redução do consumo de energia para iluminamento.

Substituição de lâmpadas de vapor de mercúrio por vapor de sódio, podem reduzir 20% da energia gasta com o mesmo iluminamento.

Redução do número de lambadas por área, onde não afete as condições de trabalho dos funcionários também é boa prática.

  • Compressores de ar: Compressores de ar alternativos consomem até 30 % de energia a mais que os modernos compressores centrífugos, uma vez que aqueles transformam parte da energia em calor e barulho, e não necessariamente em ar comprimido.
Outro ponto muito importante é o controle de vazamentos. Uma rede de distribuição com pequenos vazamentos nas conexões ou nas ferramentas poderá ter até um consumo de 30% a mais no regime de operação dos compressores, que nada mais é que energia saindo pelos vazamentos.

Operação de compressores em flutuação, ou seja, compressão conforme demanda, também pode ser significativo.

  • Caldeiras elétricas: Se tornaram praticamente proibitivas. Caldeiras a gás tem um rendimento muito superior a caldeiras elétricas, e com sobretaxa da energia, não é de maneira nenhuma operacional. Caso não se tenha outra opção, a avaliação técnico econômica de instalação de uma caldeira a gás não terá melhor momento para ser feita do que na atual situação.
  • Fornos Elétricos: Embora tenham a mesma abordagem que o item anterior, as limitações para substituição envolvem outros parâmetros técnicos que poderão ainda restringir a possibilidade de substituição.
Entretanto outras ações poderão ser implementadas. A primeira delas é avaliação da eficiência energética do forno, quantos kwh estão sendo consumidos por unidade de produto. O acompanhamento da evolução histórica, ou quando possível, comparação com outras unidades equivalentes poderá indicar a necessidade ou não (inclusive da urgência) em se implementar melhorias no equipamento. Levantamento do perfil térmico, melhorias no isolamento, pontos de aquecimento, zonas mortas, ritmo de produção, períodos sem carga, interrupções no turno etc. são ações que demandam pouco investimento e podem melhorar em até 30% o consumo específico de energia.

Outro fator importantíssimo é o período de operação do forno. Horários de ponta são até 500% mais caro que a energia no horário for a de ponta. Desligamento do forno ou mate-lo apenas aquecido, sem carga, poderá ser implementado, deslocando as operações para outra etapa do processo, ou deslocamento das interrupções previstas tais como troca de turno, jantar etc. para esse horário.

  • Motores: O acionamento motriz é um dos grandes consumidores de energia na maioria das industrias. Utilização de motores super dimensionados, além de custar mais em termos de equipamento, o consumo de energia potencial é sobremaneira desnecessário. Uma revisão da potência real necessária para cada linha, e conseqüente remanejamento dos motores poderá trazer grandes reduções no consumo.
Outro item relevante, é o fator de potência reativa. Os motores quando estão iniciando o movimento (partindo) consomem considerável energia para sair da inércia sem necessariamente produzir trabalho. A legislação brasileira estabelece como parâmetro limites o valores de 0,92 a 1,00. Em situações de partidas simultâneas, o fator de potência pode chegar a valores inferiores a 0,92, e a empresa ser penalizada por consumo de energia reativa, a qual não produz trabalho e é bastante cara.

A alternativa técnica utilizada é a instalação de banco de capacitores (acumuladores) que irão fornecer a energia necessária para a partida dos motores, sem consumir energia reativa. É importante se assegurar que o inverso não ocorra, ou seja capacitância em demasia ou que iria ultrapassar o limite de fato 1,00 que da mesma forma é sobretaxado. Para isso os banco de capacitores disponíveis no mercado possuem um controle dinâmico que evita que isso aconteça.

  • Condicionamento de ar: Nesta área, muito se pode desenvolver nos projetos futuros, uma vez que embora sejamos um país tropical, a engenharia tem se voltado mais para projetos de energia intensiva (prédios fechados, com alta insolação, ventilação forçada, etc.) Projetos desenvolvidos por algumas universidade do Amazonas e Pará tem mostrado resultados extremamente criativos no que diz respeito a utilização de áreas sombreadas, telhados abertos e com altura capaz de manter uma camada de ar, materiais isolantes, etc.
Entretanto outras medidas poderão ser adotadas sem grandes modificações no lay out das instalações. Ajuste da temperatura é uma delas. Temperaturas extremamente baixas para o conforto humano são um desperdício desnecessário de energia. Talvez a maior tarefa é conscientizar aquelas pessoas 'calorentas'' que só se sentem confortáveis em 15ºC.

Controle de horário é outra medida importante. Horário de almoço não necessita ar condicionado ligado só para encontrar a sala 'geladinha' quando retornar. Desligar os aparelhos 1 hora antes do encerramento do expediente poderá aproveitar as condições climáticas do prédio sem necessitar do compressor.

  • Controle de Demanda: Esta é talvez a maior ferramenta para adequação aos tempos atuais, mas também assegurar a continuidade de uma política de otimização energético.
    O controle de demanda a cada 15 minutos, proporciona condições de assegurar que não se irá ultrapassar em nenhum momento o limite estabelecido. De nada adianta reduzir o consumo em 20% se durante 30 minutos se consumiu 150%. O controle de demanda dinâmico, assegura o monitoramento contínuo do consumo, alerta com antecedência de tendência em sobrepassar o limite e pode até desligar equipamentos não essenciais para manutenção dos patamares de consumo.
Estas são apenas algumas medidas que poderão ser utilizadas, mas a maior delas é o comprometimento da administração com a nova realidade, e a contribuição dos funcionários para melhorias.

De qualquer modo, empresas que não possuem como ferramenta de gerenciamento um sistema conforme preconizado pela norma NBR ISO 14001, têm um ótimo motivo para implementá-lo. Para as empresas que já o possuem, deverão revisar seu cadastro de aspectos e impactos, face aos novos requisitos legais e estabelecer novas prioridades dentro de seu controle operacional ou de seus Objetivos e Metas.

Luis Filipe é Auditor da Det Norske Veritas - DNV